Pagina inicial Edição impressa Editorial Revelando os segredos de um festival
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Revelando os segredos de um festival PDF Imprimir E-mail
Sex, 14 de Novembro de 2008 13:47

Cláudio Magnavita / JT 

O Festival de Turismo de Gramado completa 20 edições. O evento foi definitivamente incorporado ao calendário turístico nacional e agora dá passos largos em sua internacionalização. Como um evento de turismo, realizado poucas semanas após a Feira das Américas - Abav e em uma cidade do Sul do País, longe do mercado do Rio e de São Paulo, conseguiu emplacar um resultado tão exitoso?

O primeiro ponto a considerar é o carisma complementar da dupla realizadora. Enquanto Marta Rossi é puro sorriso, Sílvia Zorzanello é pura operação. Uma complementa a outra. As duas desenvolveram uma doçura no trato pessoal de forma tão intensa, que os negócios ocorrem como conseqüência natural, quase que por osmose. A última coisa que se pensa no trato com elas é em cifras e cifrões.

A continuidade e a forma carinhosa de agradecer é outra parte da receita de sucesso dessas duas batalhadoras. Há 20 anos, ano após ano, elas seguram o timão do festival. A gratidão é coisa rara no nosso setor, que costuma funcionar a base de memória RAM, ou seja, quando começa um novo dia costuma-se apagar da memória todo o bem que lhe fizeram no dia anterior.  Ao completar 20 anos, o festival inaugurou uma galeria de Amigos do Festival, com foto de pessoas que foram homenageadas com o título.

Ao passear pelas fotos, descobrimos mais um dos ingredientes de sucesso de Marta e Sílvia. Elas souberam, como ninguém, cultuar os veteranos, aqueles que por força do ciclo natural de vida estavam deixando a ribalta e ao mesmo tempo apostar nos novos talentos. Toda uma geração de dirigentes, que há 15 ou dez e até cinco anos estavam em postos intermediários, chegaram agora ao poder. Quem manda hoje no turismo é um grupo de empresários, dirigentes e gestores que tiveram nestas duas décadas o festival como parte intrínseca de suas agendas pessoais. O festival tem aliados nos principais postos chaves da indústria do turismo. São pessoas que cresceram profissionalmente junto com o evento. As empresas também cresceram neste período. É só ver o caso da TAM, que hoje é numero um do mercado, mas quando adotou o festival era apenas a quarta companhia do País.

Um elemento diferencial é o próprio palco, a cidade de Gramado, que se veste para o evento. Ele não se limita apenas ao centro de eventos do Serrano ou ao pavilhão do Serra Park. Os contatos e relacionamentos acabam sendo feito em cada rua, em cada saída, em cada restaurante. O evento não se dilui na imensidão de uma grande metrópole. Gramado é um show a parte e as pessoas se livram naturalmente de algo que só esta alquimia proporciona: o stress!
Sim, o stress é abandonado nestes três dias de festival. Como o evento é menor, é possível um corpo a corpo nacional e não apenas com o mercado local. Prazeirosamente, o turismo do Brasil migra para Gramado uma semana por ano e, hoje, de forma tão instintiva que as pessoas nem percebem. Só sabem que querem ir.

Esta magia gramandense traz reflexos diretos para o turismo da região. Apesar de ser uma cidade politicamente dividida - o prefeito eleito Nestor Tissot, sucessor de Pedro Bertollucci, foi eleito por uma diferença de pouco mais de 400 votos. A oposição já chegou ao poder por 11 votos de diferença. Este ano o slogan da oposição foi: “ O Sol para Todos” , como se a elite política tivesse uma agenda de viagens e mordomias eternas e não fizesse nada pelo município.

Trata-se de um pensamento pequeno e que não condiz coma  realidade. Pedro Bertolucci, em 12 anos à frente de Gramado, é hoje o gestor municipal que melhor compreendeu as benesses que o turismo pode trazer. A cidade é hoje um exemplo. E proporcionalmente, ao numero de habitantes, é o município que recebe mais investimento do turismo.

É necessário que a população e os gestores saibam que este equilíbrio de sucesso trazido pelo festival é delicado. Essa magia, que contamina pessoas como Guilherme Paulus, hoje muito mais dono do Hotel Serrano do que envolvido no dia a dia da CVC.

Marta e Sílvia são as grandes alquimistas de Gramado e do nosso turismo. O festival não é para a cidade só um grande evento nos dias que se realiza, lotando hotéis restaurantes e movimentando os taxistas. Ele é a vitrine que garante que a cidade tenho ao longo dos 365 dias do ano a visibilidade que merece e o fluxo turístico, que com a crise mundial, deverá ser ainda maior. O festival, pelo seu lado humano, ganhou uma importância para o turismo brasileiro e por isso deve ser incentivado.

Cabe também lembrar as organizadoras que a cada ano aumentam as suas responsabilidades. Não se deve perder a essência desse trato humano, da atenção e da personalização do carinho. Não se pode delegar a pessoas que não tenham o mesmo espírito o trato com os atores principais. Da mesma forma que o Serrano Park gera uma limitação física para o crescimento do evento, deve-se tomar cuidado para que um crescimento maior não mate exatamente a essência de boa vontade e de humanização que é o esteio de todo esse sucesso de 20 décadas.

Cláudio Magnavita é o presidente nacional da Abrajet, membro do Conselho Nacional de Turismo e diretor do Jornal de Turismo.

 

TVJT

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